A sobrevida da palavra em Saramago

1391083355saramago2_jpgAté onde a narrativa chegou, relata-se, em Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, a história de um funcionário (um chefe de faturação) de uma empresa que fabrica armamento, Produções Belona S.A.; o tal funcionário, de nome sugestivo Artur Paz Semedo, resolve, com autorização da administração, esfuracar os arquivos da empresa, para ver o que nela se produzia e vendia (e a quem) nos anos 30 do século passado. O motivo de tal curiosidade é o filme de André Malraux L’Espoir, realizado a partir do romance homónimo: “Um dia artur paz semedo leu no jornal que a cinemateca da cidade iria passar o filme l’espoir de andré malraux, uma obra sobre a guerra civil espanhola rodada em mil novecentos e trinta e nove.”

A busca nos arquivos da empresa começa, incidindo sobre os tais anos da dita Guerra Civil, mas também da  Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai (1932-35). É a propósito desta  que aparece um documento aparentemente importante, que o funcionário curioso leva ao administrador. Logo depois interrompe-se o texto, numa  fala de Artur:  “Nada que outra pessoa não pudesse fazer”.

Basta o que ficou escrito para percebermos o alcance temático e ideológico deste relato incompleto: a questão da guerra, os seus sempre injustificados motivos, a responsabilidade política e moral de quem a fomenta, não apenas diretamente, mas também indiretamente (é o caso da indústria de armamento), o drama  de quantos são arrastados para os conflitos armados (todos os Baltasares Sete-Sóis da História, esses mesmos  de quem raras vezes ficou memória), as sequelas humanas e sociais de um fenómeno que, como no romance Caim, é sempre fratricida, porque opõe homens contra homens.

Com um toque de amarga ironia (que cultivou em especial nos seus últimos romances), o romancista dá nome ajustado à empresa (Belona,  deusa da guerra e associável a bélico) e àquele que é, aparentemente,  o protagonista do romance: Artur Paz Semedo. Quanto à paz, estamos elucidados; no semedo esconde-se o “sem medo” de quem arrosta com o desconhecido: que responsabilidades morais e  que lucros materiais terá tido, nalgumas guerras passadas, a empresa em que trabalha um obscuro funcionário? E como se prolongam nele aquelas responsabilidades? Quero crer que Artur Paz Semedo  é, por fim, da mesma “família” do Senhor José que, em Todos os Nomes, afronta a organização totalitária da Conservatória do Registo Central onde se guardam nomes que são também (e até antes disso) pessoas que vale a pena resgatar do esquecimento.

(extrato de “A sobrevida da palavra em José Saramago”, a publicar em Jornal de Letras, Artes e Ideias de 17.9.2014)

Guerra Civil Espanhola, 1936

Guerra Civil Espanhola (1936), por Robert Capa

1 Comentário

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One response to “A sobrevida da palavra em Saramago

  1. Silvio Alves

    Bellona, é a deusa da guerra. No Jardim de Schonbrunn, em Viena, há uma escultura de Wilhelm Beyer, do século XVIII, em que ela está junto com o deus Janus, de duas faces opostas. Este era o deus do paradoxo. O templo consagrado a esse deus tinha duas portas, também opostas, que ficavam fechadas em tempos de paz e abertas em tempos de guerra. Na escultura, Janus está abraçado a Bellona, contemplando-a com uma de suas faces. Parece-me que Saramago soube explorar bem o simbolismo da mitologia ao escolher o nome da fábrica de armas.

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