A demografia imaginária da Terra

Luiz Fernando Veríssimo

Luiz Fernando Veríssimo

Uma crónica de Luiz Fernando Veríssimo, n’O Globo de hoje (14 de agosto), traz de novo à reflexão a questão da sobrevida das personagens de ficção. Em “Fricções”, Veríssimo cita Jorge Luis Borges para falar do aumento da “demografia imaginária da Terra”. Não são só os espelhos que duplicam a humanidade (como dizia Borges); as ficções também o fazem, na medida em que povoam o mundo dos romances (e dos contos; e das novelas) com figuras que, por vezes, se recusam a ficar encerradas no espaço imaginário em que estão (ou deviam estar) confinadas. E assim, “como se não bastassem os parentes e os vizinhos e os bilhões de chineses, temos que nos preocupar com a Antígona, o Hamlet, o Raskolnikov, o Swann, centenas de personagens que, só por serem inventados, não ocupam espaço menor em nossas vidas, e nunca vão embora”.

Assim é. Por isso dizemos de alguém que é quixotesco ou acaciano, como se as personagens que geraram aqueles epítetos continuassem entre nós, com vestes modernas, mas sempre implacavelmente presentes. Por isso procedemos, mesmo que inconscientemente, a exercícios de categorização e procuramos encaixar quem está próximo  de nós em  grupos que conhecemos e que, não raras vezes, saíram de romances que lemos: são os tipos, é claro, sejam eles o jornalista, o banqueiro, o político, o industrial, a mulher fatal ou o avarento. Ou o académico, como no romance de Cristóvão Tezza, O Professor, que estou a ler.

Ali ao lado está uma figura que corresponde a um tipo, talvez provindo de  um romance. É um jovem executivo, lidando  em simultâneo com um telemóvel e com um laptop;  conversa com um seu semelhante e, no que diz, abundam termos como “planeamento”,  “agendamento”, “calendário”, “time out”, “delay” e outros que tais. Acredite-se ou não, o jovem executivo, dono de um olhar de falcão pronto a cair sobre a presa indefesa, está a falar português. De que romance terá saído?

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3 comentários

Filed under Sobrevida

3 responses to “A demografia imaginária da Terra

  1. Cristina Vieira

    Muito estimado Doutor Carlos Reis: Obrigada por esta belíssima crónica e comentário. Personagens como seres que também povoam a Terra, aumentam a demografia do mundo. Sinto isso ao crescer diante do Mediterrâneo imagens que antes eram apenas um conjunto de sons: Mentor e Telémaco, ao ler na íntegra a “Odisseia”, têm outra carnalidade… Vou no canto III, e até agora só mandam calar ou ir para os seus aposentos a Penélope. Lá dizia o Chico Buarque: “Mirem-se no exemplo daquielas mulheres de Atenas”. Um abraço muito figurativo e desejoso de excelentes férias, Cristina Date: Thu, 14 Aug 2014 19:14:36 +0000 To: crisleov@hotmail.com

  2. Realmente, Doutor Carlos reis, necessitamos dessas pessoas imaginárias (e tão reais) para re-significar nossa vida, ainda que por meio da ficção…

  3. Professor Carlos nos brinda com mais este texto!
    Em minhas reflexões a cerca do retrato pictórico por vezes tenho me deparado com a perpetuação das personagens de ficção. Essas figuras que invadem os diálogos em nosso cotidiano tornando – se seres habitantes capazes de serem tomados como exemplos em grandes seminários científicos.
    Isso os fazem imortais!

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