Figuração, política e vida real

Declarou o ministro Nuno Crato: “As universidades que existem em Lisboa são universidades absolutamente extraordinárias. Eu próprio na minha geração anterior, ou na minha figuração anterior, estava na Universidade de Lisboa (…)”.

Recentes contributos do campo dos Estudos Narrativos permitem esboçar uma definição do conceito de figuração. Assim, entende-se por figuração o processo discursivo e metaficcional que, em diferentes momentos da composição de um relato, conduz à individualização de uma personagem num universo ficcional. A figuração desenvolve-se gradualmente ao longo da narrativa, convoca dispositivos de diversa ordem e remete para as dominantes semântico-pragmáticas do relato; por fim, a figuração provoca efeitos cognitivos muito variados e permite dizer da personagem que ela é uma figura ficcional.

Da definição proposta e em articulação com ela deduzem-se várias conclusões, ainda assim provisórias, a saber:

  • As figuras reais, cuja existência é empiricamente verificável, podem ser objeto de figuração ficcional, por proposta própria ou por iniciativa de outrem.
  • A figuração situa-se num plano ontológico que liberta as figuras ficcionais do conceito de mentira e das valorações ético-morais que tal conceito implica.
  • A figuração ficcional consuma-se em narrativas em que eventualmente se concretizam atos de feição política com forte incidência social.
  • Tais atos, pela dimensão ficcional que reclamam, como consequência do processo de figuração, são imunes à censura ou a críticas como as que formulamos na nossa vida real, dirigidas às figuras reais.
  • Os sujeitos que vivem (e reivindicam) o estatuto ontológico da figuração são, por natureza, inimputáveis e irresponsáveis, relativamente às normas jurídicas e éticas que regem as sociedades.
  • Só por derivação e impulso para a transcendência (que é privilégio de grandes personagens como Dom Quixote, Hamlet, Julien Sorel, Brás Cubas, Leopold Bloom e poucos mais) uma figura ficcional pode abdicar, de forma artificial, dessa sua condição ficcional e projetar-se no nosso mundo real e empiricamente verificável.

1 Comentário

Filed under Figuração

One response to “Figuração, política e vida real

  1. Cristina Vieira

    E por isso, pode a figura ficcional em questão retirar-se de cena, desculpe, Doutor Carlos Reis pela imprecisão terminológica, da narrativa que ele próprio construiu…

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