Figurações do insólito

Jeff Goldblum, em A Mosca (1986) de D. Cronenberg

Jeff Goldblum, em A Mosca (1986) de D. Cronenberg

Na pintura surrealista e na arte expressionista, em geral, é flagrante o apelo a uma visualidade “forte”, legitimada pelo intuito de projetar na tela figuras de conformação irracional, fragmentos aparentemente desconexos, significados e objetos provindos do mundo dos sonhos. E no cinema de terror, de suspense, de figuração fantástica ou dos super-heróis são as imagens chocantes, as sonoridades assustadoras e as proezas sobre-humanas que acentuam o insólito; um insólito que, em muitos casos, vem de matrizes literárias, ou seja, de romances e de contos adaptados ao cinema. Os nomes e os títulos são conhecidos: Alfred Hitchcock, David Cronenberg, Tim Burton, Stephen King, Psicose, A Mosca, Sweeney Todd, O Silêncio dos Inocentes, O Exorcista ou Alien, o Oitavo Passageiro. Repito: o ponto de partida para algumas destas representações encontra-se em narrativas literárias e mesmo em mitos da Antiguidade. Por exemplo, A Mosca, de Cronenberg, vem d’A Metamorfose, de Kafka; e o Super-Homem descende quase em linha direta dos relatos mitológicos que nos contam os trabalhos de Hércules, um super-homem dos tempos antigos.

Importa notar que, para que o Super-Homem do século XX se fizesse personagem e herói com as ressonâncias míticas que Umberto Eco nele destacou, em Apocalípticos e Integrados, foi preciso esperar que a imagem trouxesse para a cena do relato o insólito visual de quem levanta automóveis, voa pelos ares ou consegue ver através dos objetos: foi em 1938 que a revista Action Comics começou a publicar a banda desenhada de Jerry Siegel e Joe Shuster, amplamente explorada depois pelo cinema, pela televisão e pela tecnologia dos efeitos especiais, prolongando-se no Batman, no Homem-Aranha, no Capitão América e em toda a família de personagens fisicamente sobredotadas. Foi a partir da feição plástica e dinâmica de imagens em movimento e de sons em profusão, tudo apoiado ultimamente pela computação gráfica, que aqueles heróis e mais os avatares concebidos por James Cameron e outros que tais geraram uma cultura pós-moderna e sensorial do insólito. Comparada com tal exuberância, séries televisivas como Ficheiros Secretos, Diários de um Vampiro ou The Walking Dead (e com estas, outras semelhantes) chegam a parecer discretas; e todavia, em última instância elas fazem parte de uma disseminação do insólito que a literatura cultivou dentro dos limites da palavra, que a estética do realismo tentou retardar e que a civilização da imagem, na aldeia global e na era digital, acabou por fazer explodir. Os públicos deste insólito que apela aos sentidos e às emoções fortes alheiam-se dos princípios da verosimilhança e operam uma radical suspensão da descrença; nada devem e em tudo divergem dos leitores que o realismo literário oitocentista educou no respeito pela mencionada verosimilhança: ela era o princípio e a regra de um ethos que convivia mal com o insólito e, por consequência, com o fantástico.

(extrato de “Figurações do insólito: a reversão do típico”; II Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional; Rio de Janeiro, UERJ, 28 a 30.4.2014)

Max Ernst, L'Ange du foyer ou Le Triomphe du surréalisme (1937)

Max Ernst, L’Ange du foyer ou Le Triomphe du surréalisme (1937)

1 Comentário

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One response to “Figurações do insólito

  1. Ana Paula Magalhães

    Não obstante o caráter insólito do aspeto físico ou dos poderes fantásticos destas personagens, é importante aduzir que elas apresentam vivências que tecem comentários à sociedade da época em que são posicionadas. “A Mosca” e o ser transmutado de Kafka representam, respetivamente, a desumanização do ser imposta por circunstâncias internas exteriorizadas e o mesmo fenómeno pelas externas interiorizadas – ao invés do inseto kafkiano que desperta para a sua desumanização carnal, a mosca de Cronenberg começa o seu processo de mutação intelectualmente, sendo, assim, representados dois processos bem distintos. Ao primeiro impõe-se a burocratização, a massificação,o anonimato, fenómeno social de início de século, ao último desfigura a tecnologia e a sede de conhecimento científico que a tudo o resto se sobrepõe.
    Já ao fenómeno do Super-Homem preside a circunstância dramática de duas guerras mundiais, encorporando a fantasia do poder de proteção contra ameaças externas que punham em causa o “american way of living”, a domesticidade idealizada.
    Os meus cumprimentos e gratidão por mais uma partilha muito interessante.

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