José Wilker ou a sobrevida do ator

O romance Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado conheceu três adaptações televisivas. A primeira, na desaparecida TV Tupi, em 1961, com realização de Maurício Sherman e guião de António Bulhões de Carvalho, foi protagonizada por Paulo Autran e por uma hoje esquecida Janete Vollu.  Jorge Amado colaborou na produção e o romance encetou então um trajeto de ampla projeção pública que a cena mediática televisiva acelerou. antesdepois_mundinho

A segunda Gabriela, de 1975, é histórica a vários títulos, mas em particular por ter proporcionado o primeiro e fascinado contacto do espetador português com a lógica narrativa da telenovela. Produzida pela Globo e realizada por Walter Avancini e Gonzaga Blota, essa Gabriela (vista em Portugal ainda a preto e branco, num ano de 1977 em que muitas coisas estavam a mudar) foi reescrita para televisão  por Walter Durst e protagonizada por Sónia Braga. No papel de Mundinho Falcão, o jovem político chegado a  Ilhéus para contestar o poder dos coronéis, um ator desconhecido em Portugal: José Wilker.  Em 2012, a Globo reincidiu: Mauro Mendonça Filho realizou a remake escrita em 77 episódios por Walcyr Carrasco, com Juliana Paes como Gabriela; vindos da produção de 1975, dois atores:  Ary Fontoura e José Wilker.

Algumas vezes  tenho referido aqui o conceito de sobrevida da personagem. Aludo, assim,  à  capacidade que a personagem eventualmente revela  para transcender as fronteiras da ficção (por metalepse, ela chega a entrar nas nossas vidas) e do tempo em que surgiu. Sobrevida é também o reaparecimento da personagem, por refiguração, em transposições intermediáticas (no cinema, na televisão, etc.). A chamada remediação procura, então, nos  media de base tecnológica, compensar as alegadas limitações de um primeiro medium (p. ex., o livro em que o relato escrito é lido) e atingir uma mais expressiva representação ficcional (veja-se J. D. Bolter e R. Grusin, Remediation: Understanding New Media, de 1999).

Falo agora de um fenómeno paralelo ao que mencionei: a sobrevida do ator. Paralelo e também específico, sendo o conceito aqui reportado ao reaparecimento do ator ao interpretar uma outra personagem, no mesmo universo ficcional, mas em nova versão. O que, não sendo inédito, também não é frequente. Em Gabriela, de 1975, José Wilker é Mundinho Falcão; em Gabriela, de 2012, José Wilker é Jesuíno, um dos coronéis de Ilhéus. Sendo de natureza própria, a sobrevida do ator baseia-se, por um lado, no reconhecimento de que a passagem do tempo deixa no ator marcas diferentes das que imprime na personagem (neste caso, elas são sobretudo um efeito de sucessivas leituras) e, por outro lado, na versatilidade que ele possui para dar corpo a outra personagem, eventualmente bem diferente da primeira que interpretou.

No casting da Gabriela de 2012, Wilker passa para o outro lado da barricada, o dos coronéis prepotentes. O que levanta duas francisco_dantas_jos_wilker_coronel_jesu_no_mendon_a_novela_gabrielaquestões interessantes, do ponto de vista cognitivo: a que trata de saber se o espetador de 2012, tendo visto a Gabriela de 1975, é capaz de desligar completamente o ator agora Jesuíno do ator anteriormente Mundinho (uma questão que poderia levar-nos ao tema da dualidade da personagem, tratado por M. Smith em “On the Twofoldness of Character”, New Literary History, 42: 2, 2011). E outra  questão ainda: a que indaga a pertinência de dois castings incidindo sobre o mesmo ator, com uma distância de quase quatro décadas e, portanto, contando com a passagem do tempo sobre a pessoa física que muda de personagem. Para quem leu Gabriela, Cravo e Canela é essa a prova máxima que pode levar à consagração de um ator e assegurar a sobrevida a que ele tem direito; uma sobrevida quase sempre, todavia, mais precária e mais curta do que a da personagem.

[Nota pessoal: a reflexão que este post encerra foi em boa parte inspirada pela  participação de quem o escreveu num colóquio co-organizado pela secção de Jornalismo da Fac. de Letras de Coimbra e pela TV Globo, em novembro de 2012. Nesse colóquio participou também José Wilker, agora desaparecido. Dele guardo a imagem de um ator culto, inteligente, de palavra fluente e dialogante, com fino humor e trato afável. Aqui lhe deixo a minha homenagem].

Colóquio Brasil Portugal 09

2 comentários

Filed under Casting, Sobrevida

2 responses to “José Wilker ou a sobrevida do ator

  1. Alice Martha

    Muito bom e oportuno texto!!!

  2. Brilhante participação de José Wilker, que mesmo na pele de coronel, conquistou o Brasil. Um exemplo de quão capaz de manter-se cada vez mais esplendoroso naquilo que faz. Grande perda para a arte brasileira!

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