Personagem e condição humana

«Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real» (Livro do  Desassossego, trecho 117, edição Richard Zenith).

Ora, não pode ser este, também, um dos caminhos que nos leva a ler de novo um romance, a revisitar, solenemente, personagens já relativamente bem conhecidas?

Keira Knightley como Anna Karenina

Keira Knightley como Anna Karenina

Deparamo-nos com esta questão e apercebemo-nos de que uma releitura  é sempre um preenchimento  de espaços vazios, por conta do aumento da nossa capacidade de experiência humana e intelectual (a nossa enciclopédia, como disse Umberto Eco, vai aumentando), criando em nós essa expectativa  de um deleite maior, mais profundo e intenso.

De facto, parece-nos que também passa por aqui essa necessidade de voltar a ler os mesmos romances: “tornar a vida real” por meio da literatura e aproximar a humanidade de um ideal artístico, seja ele de ordem e harmonia ou caos e maldade. Ambos, esteticamente, serão belos, à sua maneira. George Steiner diz-nos, num dos seus livros, que um dos espíritos mais radicais do pensamento contemporâneo definiu a tarefa desta época sombria como a de «aprendermos a ser de novo humanos» (Presenças reais). Pena não sabermos quem foi esse radical espírito, mas ele inquietou-nos bastante.

Serão as personagens literárias mais humanas do que nós? Terão elas uma complexidade humana em que nos revemos, sem vislumbrarmos todos esses aspetos?

Refletimos sobre isto, pois sempre que relemos um romance ou um livro de fragmentos, temos consciência não só desta questão como da necessidade de querer voltar e voltar, quase como que um discípulo que solenemente não consegue abandonar o oráculo.  Não será, também, por isso, que a literatura nos fascina, ao ser capaz de nos fazer pensar, várias vezes, sobre algo aparentemente conhecido?

Na verdade, o ser humano passa, necessária e inevitavelmente por cinco situações que fazem parte da nossa existência e condição: “birth, food, sleep, love and death” (E. M. Forster, Aspects of the Novel). Terão as personagens literárias que seguir este caminho? Estarão mais longe de nós se não passarem por alguma destas situações? Recordemos algumas personagens das quais pouco ou nada sabemos em relação ao seu nascimento ou morte, por exemplo. Estarão elas, as personagens, vivas, entre nós, fora dos romances e textos literários onde parecem ter surgido? É, julgamos, o facto de elas estarem vivas que as muda, assim como nós mudamos e crescemos. Crescerão elas connosco? Cresceremos nós com ela? A literatura pode ajudar-nos na resposta, tendo em conta que reler um livro é relermo-nos enquanto humanos num mundo em que a nossa condição passa por escolhas e por silêncios.

 José Vieira (grupo de investigação “Figuras da Ficção”)

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

 

1 Comentário

Filed under Condição humana

One response to “Personagem e condição humana

  1. Basta os romances se basearem em factos reais. Quantas vezes não nos revemos!

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