Os estudos narrativos, no estado em que hoje os conhecemos, reincorporaram no seu âmbito uma categoria narrativa que durante algumas décadas foi subalternizada. Chama-se personagem essa categoria sem a qual não há relato que se sustente. Mas de certa forma foi isso mesmo que os pais fundadores dos estudos narrativos ignoraram, quando a análise estrutural da narrativa dos gloriosos anos 60 procurou cumprir um projeto de trabalho de base dedutiva. “Perante milhões de relatos”, dizia Roland Barthes, a análise da narrativa está “forçosamente condenada a um procedimento dedutivo; está obrigada a conceber antes de mais um modelo hipotético de descrição (…), descendo em seguida, pouco a pouco, a partir desse modelo, até às espécies que, ao mesmo tempo, nele participam e dele se afastam” (“Introduction à l’analyse structurale des récits”, Communications, 8, 1966, p. 2).
O projeto estruturalista era de índole translinguística e o seu aprofundamento semiótico, na abordagem greimasiana, acentuou a dimensão funcionalista dos agentes narrativos, reduzidos à condição abstrata de papéis actanciais sem densidade humana. Exagerando um pouco, mas não muito, podemos mesmo dizer: nesse tempo, o autor foi morto e levou consigo, para a cova que lhe abriram, a personagem, companhia solidária e a vários títulos conveniente (modestamente também ajudei ao funeral, mas não foi por mal…). Mesmo a narratologia de Genette, verdadeira revolução copernicana dos estudos sobre a narrativa, cuja sistemática construção até hoje tem validade, fixou-se na articulação do discurso e na dinâmica da narração e dos protagonistas que nela intervêm. Quando, em 1983, reviu e reajustou as suas propostas, Genette respondeu a quem nelas criticara a omissão da personagem, notando que em “Le discours du récit” se ocupara “do discurso narrativo e não dos seus objetos” (G. Genette, Nouveau discours du récit. Paris: Seuil, 1983, p. 93); uma distinção que, evidentemente, reiterava a dicotomia história/discurso que fundamentava a narratologia de então. Sendo assim, a personagem ficava de fora, abandonada à sua sorte e olhada como “esse ‘ser vivo sem entranhas’ que aqui não é (…) senão um efeito de texto” (G. Genette, op. cit., p. 93).
Terá sido por estas (e por outras) que a pertinência operatória da narratologia se foi desvanecendo? Talvez, mas não só. Em todo o caso, é preciso dizer que alguma coisa dela perdurou e perdura, em parte porque a narratologia incorporou subdomínios muito fecundos (como a pragmática narrativa) e abriu-se interdisciplinarmente à psicanálise, à sociocrítica, à teoria da receção, à retórica, aos estudos fílmicos, etc. De modo que, not so fast, a narratologia não morreu. Ou então, para o dizer como David Herman: “Parece, em resumo, que os boatos acerca da morte da narratologia têm sido enormemente exagerados” (D. Herman, Nartatologies. Columbus: Ohio Statate Univ. Press, 1999, p. 2). E foram mesmo, conforme se percebe do que hoje conhecemos como narratologia pós-clássica ou, como prefiro dizer, estudos narrativos; a sua conjugação com as solicitações e com os fundamentos epistemológicos da retórica, das ciências cognitivas, dos estudos femininos, dos estudos culturais ou dos estudos mediáticos trouxe de novo ao nosso convívio a personagem, essa figura que nenhuma narrativa dispensa, porque nela, como magistralmente explicou Paul Ricoeur, está inscrita uma temporalidade humana que é co-natural à própria temporalidade narrativa.
(“Pessoas de livro: figuração e sobrevida da personagem”, em preparação)
