A projeção de um imaginário feminino se dá somente quando as mulheres passam a alimentar os discursos que sustêm seus próprios retratos. E somente se configura como relevo histórico quando os homens passam a entender que a configuração do mundo só pode ser apreendida no diálogo entre masculino e feminino. A supressão de ambos os polos parece ser tão danosa quanto a supressão do mal em detrimento do bem. Tudo parece depender de um equilíbrio para que se pense num conceito coerente acerca do mundo. Essa tomada de cenário pelo que estava na sombra parece ser o grande tema que sustenta essas mulheres saramaguianas aqui lidas. Não é à toa que as protagonistas são signos de visão.
O resultado desse esboço é o que aqui se apresenta significando o reengendrar de outras imagens nessa galeria de discursos em torno seja do feminino seja da obra saramaguiana. Não se constitui, claro está, num estudo definitivo e, quando falo de prosa e/ou obra saramaguiana, estou levando em consideração a produção literária do escritor – crônica, conto, teatro, romance – editada até seu último romance publicado em vida, Caim. Essa ressalva é necessária porque em outubro de 2011 é publicado aquele que seria o segundo romance da carreira do escritor português e que findou sendo o último, Clarabóia, obra que este estudo não cita e que ficará como consideração para uma futura reedição deste trabalho.
Pedro Fernandes Neto, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago. Curitiba: Appris, 2012 (do prefácio).