O herói desportivo: the special one

Eusébio com Fernando Marques, o Formidável

             A biografia é um género  em que  se combinam  duas propriedades que muito importam à heroização do atleta. Primeiro: a biografia exalta uma personalidade que merece ser destacada do fluxo da História. Segundo: a biografia recorre a  elementos paraficcionais,  ou seja, componentes da “história” contada que, não sendo verificáveis empiricamente, às vezes ocultam  zonas pouco nobres da vida passada. Com a conivência, até com a exigência dos interessados, as chamadas biografias autorizadas são exímias em cultivar esses estratagemas de camuflagem.

Sintomaticamente, as biografias de homens e de mulheres  do  desporto são quase sempre da autoria de jornalistas ou, no mínimo, escritas em regime jornalístico. É o que se percebe quando consultamos  títulos como os que se seguem: Cristiano Ronaldo: A Verdadeira História do Melhor Futebolista do Planeta (2008), por Tom Oldfield; Rosa Mota: Memória de uma Carreira (1999), por Leonor Pinhão;  Carlos Lopes (1992), por Carlos Pinhão. Para além destes e de outros mais, lembro  o caso  bizarro de uma autobiografia escrita não pelo próprio, como mandam as regras do género, mas por um escriba de serviço:  Meu nome é Eusébio: autobiografia do maior futebolista do mundo (1966),  prefácio e narrativa recolhida por Fernando F. Garcia. Recolhida e certamente reescrita,  porque  quem tem talento com os pés não o tem necessariamente com a pena.

Trata-se, em geral, de obras de extensão  reduzida, em estilo simples, direto e pouco dado a flores de retórica (a não ser a hipérbole, é claro), relatando origens humildes, a que se seguiu a árdua superação de obstáculos de toda a ordem, com o justo prémio de taças, campeonatos, medalhas e recordes, por entre viagens incessantes, duros treinos e algumas lesões; um trajeto de vitórias, em suma, aqui e ali alternando com uma ou outra chorada derrota. Não faltam na biografia testemunhos do visado e não poucos depoimentos de familiares, amigos, treinadores e companheiros de profissão. Tudo isso e  muitas imagens, sobretudo das proezas, às vezes também de fracassos que humanizam o herói.

Retomo aqui um aspeto relevante desta reflexão: o império das imagens enquanto instância de consolidação  do herói desportivo. E recupero  imagens talvez já esquecidas, que deram a volta ao  pequeno mundo português, recolhidas no dia em que um herói  foi derrotado e com ele uma nação. Refiro-me às fotografias de  Eusébio  em lágrimas,  a 26 de julho de 1966, logo depois da derrota por 2 a 1 com a Inglaterra. Pois bem: o que impressiona  não é apenas a desolação de um moço simples de 24 anos; a desolação fala por si e não carece de mais comentários. Mas a imagem é também fotografia do fotógrafo, não do que a captou, é claro, mas da figura que apoia Eusébio,  uma presença que ali significa o seguinte:  o fotógrafo estava lá, como tinha que estar, mas por instantes fez parte do drama como ser humano. Com a câmara fotográfica momentaneamente esquecida, o fotógrafo diz-nos, sem o dizer: houve um tempo em que o espetáculo desportivo e o seu herói, começando  já a ser imagem, consentiam  a trégua de um gesto de carinho. E assim, o fotógrafo não fotografou porque preferiu confortar o herói vencido, porventura inocente dessa sua condição.

Quer isto dizer que os atletas já não choram? De modo algum. Quase quatro décadas depois, no derradeiro jogo do Euro 2004, um  herói  ainda em crescimento  não conteve o pranto. Mas nesse dia, o jovem quase adolescente não teve consigo quem o acalentasse; Ronaldo lágrimas 3todo ele era imagem, uma imagem de que o fotógrafo não abdicou. Por isso, quando terminou a final, Cristiano Ronaldo  chorou sozinho, perdido no relvado onde foi herói por cumprir e vítima  abandonada à crueza de imagens  quase indecorosas. Nesse dia, o fotógrafo estava onde devia, atrás da câmara; com ele estavam  todos os agentes das imagens que (passe a redundância) fazem ícones e configuram heróis. Heróis que, quando derrotados, pagam o preço de uma cruel solidão que o poder das imagens maldosamente acentua.

Foi de peito aberto que, em junho desse ano de 2004, em Londres, um treinador português contratado por um milionário russo e chamado José Mourinho proferiu uma declaração que o acompanhará pelo resto da vida:  “I am the European champion. I think I am a special one.” Assim mesmo, sem medos, rodeios ou modéstias, ficava enunciado o que parecia ser o princípio de uma narrativa, mas que, afinal, era já a sua continuação e a promessa de novos e mais excitantes capítulos. Mourinho, de resto, logo em 2003 tivera direito a uma biografia, da autoria de Luís Lourenço, biografia que hoje sabemos provisória, porque falta muito para a história  acabar.

Quem era  José Mourinho e por que razão este herói então em projeto indignou alguns, chocou outros e seduziu não poucos? Era alguém que sabia que, ali no coração da chamada “pátria do futebol”, estava a falar para o mundo (as televisões filmaram e as imagens permanecem no ciberespaço); alguém que afirmava um poder que nada autorizava, a não ser a  crença  nas virtudes de um heroísmo  por provar. E assim,  um treinador jovem, chegado de um pequeno país do sul, historicamente colónia económica da Grã-Bretanha,  afrontava o John Bull robusto e prosaico. E fazia-o na própria casa de quem o acolhia, como que compensando, quase quarenta anos depois, a derrota no Mundial de 66. As lágrimas de Eusébio estavam vingadas e os portugueses juntamente com elas; e mais vingadas ficaram quando o jovem treinador mostrou que era herói por palavras e por atos. Por tudo isso e pela imagem que soube cultivar, mais o cognome que o próprio Mourinho escolheu, como se assim se definisse a marca de água que o distingue como herói desportivo.

(Excerto de “The Special One. Fenomenologia do herói desportivo”, in Comunicação & Educação, ano XVIII, 2, pp. 63-74)

digitalizar0008

Deixe um comentário

Filed under Futebol, Herói

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s