Figuração (2)

Observo agora aquilo a que chamei os dispositivos de figuração ou, de forma menos rebuscada, os procedimentos que levam a fazer personagem, em particular a personagem narrativa e ficcional.

Assim, no tocante aos chamados dispositivos retórico-discursivos (que são aqueles em que o labor textual é mais flagrante),  importa lembrar que estamos  naquele domínio que o narrador das Viagens na minha terra explicita, quando desvela a autoconsciência compositiva que  aqui surge:  “As amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou apresentar em cena” (cap. XX). Em função desta alusão ao ator, noto, apenas de passagem, algo que já sublinhei: que é possível alargar a noção de figuração ao universo dramático.

Aquela referência ao ator (que consabidamente age em tensão dialética com a personagem do drama ou do filme) conduz-nos a um princípio diretamente relacionado com o trabalho compositivo, com  dimensão cognitiva; chamo-lhe  princípio  da dupla perceção, num sentido  que  deduzo da propriedade  que Murray Smith designou como twofoldness  ou (em tradução expedita) dupla face, verso e reverso de uma entidade dual que apreendemos nessa sua condição de duplicidade; apetece-me até, para melhor traduzir o movimento percetivo que aqui está em equação, apelar à noção pessoana de duplo, em Chuva Oblíqua: “Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo…/O vulto do cais é a estrada nítida e calma/Que se levanta e se ergue como um muro (…)”.

Cito o texto de Smith de onde parto para falar em dupla perceção:  “Quando nos envolvemos com uma personagem literária, o nosso conhecimento dessa personagem traz consigo, ao mesmo tempo, uma compreensão do seu lugar no mundo ficcional e uma apreciação do seu lugar no desenho da obra” (“On the Twofoldness of Character”, New Literary History, 42: 2, 2011, p. 283). Ou seja: não é possível dissociar o lugar funcional da personagem (Carlos é o herói da novela das Viagens) de um certo desenho da narrativa (que inclui a tal “esquiça rápida” e que afinal não é assim tão rápida…). Num outro domínio, que é homólogo deste, falamos em atores ou em atrizes de culto, como elementos decisivos para a conformação de certos tipos de personagem, em determinados universos fílmicos (p. ex., os de Alfred Hitchcock, Woody Allen ou Manuel de Oliveira). Em ambos os casos, trata-se de um ato de contemplação em simultâneo de duas faces (twofoldness) de uma entidade que se dá a “ler” nessa condição dúplice, sem que uma oculte a outra  (de novo a Chuva Oblíqua: “Vai e vem a bola, ora um cão verde,/Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…”).

(de “Retratos de personagem: para uma fenomenologia da figuração ficcional”, em composição)

Kim Novak, em Vertigo, de Hitchcock

Kim Novak, em Vertigo, de Hitchcock

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