Figuração

            O conceito de figuração designa um processo ou um conjunto de processos constitutivos de  entidades ficcionais, de natureza  e de feição antropomórfica,  conduzindo à individualização de personagens em universos que as acolhem e com os quais elas interagem. Tal individualização verifica-se sobretudo em contextos narrativos e em contextos dramáticos, mas acontece também, de modo residual ou difuso, em contextos de enunciação poética, em particular quando estão em causa composições dotadas de certo índice de narratividade. Por outro lado, a figuração pode ser encarada como processo translato, quando observamos a sua ocorrência, de modo sistemático ou ocasional, em discursos que não são formal ou institucionalmente literários. Refiro-me, por exemplo, à historiografia, à epistolografia e aos discursos de imprensa (p. ex., os retratos de figuras públicas); mais perto de nós e de forma já quase avassaladora, os perfis do Facebook, incluindo fotografia e cenário de enquadramento, projetam no ambiente eletrónico, em suporte digital e com vasta difusão na rede, componentes que nos habituámos a ler nas narrativas verbais e literárias convencionais: origem, formação, cronologia, relações de amizade e de família, hábitos culturais e sociais, etc. (deixo para outro momento uma caracterização circunstanciada dos protocolos e da linguagem do Facebook, como revalorização de procedimentos de figuração com forte e, às vezes, perverso alcance social.)

Para os efeitos da presente definição, dá-se atenção particular à figuração narrativa, pela relevância que lhe reconhecemos na vasta tradição ocidental de relatos ficcionais em que a personagem ocupa lugar de destaque. Assim, sendo um processo ou um conjunto de processos, a figuração é dinâmica, gradual e complexa. Isto significa que normalmente ela não é localizável estritamente num lugar do texto, distribuindo-se e completando-se ao longo da narrativa. Além disso e também pela sua natureza dinâmica, a figuração não se restringe a uma descrição, no sentido técnico e narratológico do termo, nem mesmo a uma caracterização, embora esta possa ser entendida como seu efeito elaborado.

A adequada conceptualização da noção de figuração carece de aprofundamentos que  tratarão de privilegiar os dispositivos que a concretizam. Neste momento é possível distinguir:

  • Dispositivos discursivos (ou retórico-discursivos);
  • Dispositivos de ficcionalização ou paraficcionais;
  • Dispositivos de conformação acional.

Naturalmente que só de forma artificial e por força da análise em curso estes dispositivos são isoláveis, uma vez que normalmente  a figuração implica a sua interação e interpenetração.

Antes de avançar, convém recordar o seguinte: o termo figuração é indissociável do   conceito polissémico de figura, do termo que o designa e da sua etimologia. Esta associação envolve pelo menos três aspetos:

  • A tradição retórica que, desde a Antiguidade, se interessa por procedimentos respeitantes à construção do discurso, às suas potencialidades argumentativas e ao trabalho formal que a serve;
  • O deslizamento semântico que conduz do sentido primordial de figura (“forma exterior, o contorno externo de um corpo”, conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) até ao sentido de personagem (chama-se figura a “cada um dos personagens de uma peça”);
  • O estabelecimento de relações cognatas  (ou de “parentesco”) de figura com ficção, ficcionalidade, fictício e fingimento, relações suportadas pela etimologia comum daqueles vocábulos.

Em termos genéricos, a figuração, enquanto representação ficcional da pessoa, implica um trabalho de semiotização, ou seja, a articulação de um discurso que produz sentidos e que  gera comunicação, com efeitos pragmáticos. No quadro modal da narrativa esse discurso pode ser descrito de forma muito pormenorizada, com recurso ao aparato conceptual que a narratologia (dita) clássica sistematizou.

Por fim, a figuração, passando por esse processo de semiotização, pode alcançar um índice considerável de disseminação. Tendendo a universalizar os sentidos inerentes à sua condição de figuras ficcionais, certas personagens (Ulisses,  Dom Quixote, Julien Sorel, Emma Bovary, Anna Karenina, etc.) transcendem os relatos em que foram objeto de figuração, são sujeitas a processos de refiguração e ganham, por isso, uma sobrevida que merece atenção especial. Por exemplo: quando a personagem interpela o seu autor.

 (Revisto e desenvolvido)

quino

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