O retrato e a biografia

O retrato e a biografia                “O retrato literário, conforme o podemos perceber já com Heródoto, é desde cedo explorado pelo historiador como forma de transmitir a sua perceção dos mecanismos da História e do modo como, por detrás do facto histórico singular, é passível de apreensão esse jogo entre contingente e necessário que leva o homem a agir como age” (“Preâmbulo” a A. Pérez Jiménez, J. Ribeiro Ferreira e M. do Céu Fialho (coords.), O Retrato e a Biografia como estratégia de teorização política. Coimbra: Imp. da Univ. de Coimbra/Univ. de Málaga, 2004, p. 7). Ou seja: o retrato constitui uma prática extremamente remota, situada no lugar de cruzamento entre ficção,  historiografia e biografia; e nem sempre as fronteiras artificiais que as delimitam são percetíveis.

Desenvolve-se no sentido de conviver com aquela fluida ambiguidade e de a valorizar o conjunto de estudos que integram o volume referido. Trata-se nele de mostrar que “a retórica do retrato literário (…) virá a converter-se em estratégia de teorização política e converter-se-á num poderoso filão discursivo” (p. 7).

Alguns contributos significativos,   de onde podemos recolher pistas de reflexão que interessam à teoria da personagem, às relações entre ficção e História e à axiologia e figuração do retrato literário.  Para José Luis Calvo Martínez, importa recuperar a Oratória pelo contributo que ela pode dar à biografia e ao retrato: “es fácil observar que casi en cada discurso hay una pequeña biografía o, al menos, un retrato” (p. 38). Francisco de Oliveira debruça-se sobre Plínio o Antigo enquanto historiador, analisa a História Natural e destaca nela o recurso à técnica do retrato (pp. 119 ss.). Rita Marnoto ocupa-se d’O Príncipe de Maquiavel e nota: “A solidez e a coerência do retrato do Príncipe são postas em relevo pelo facto de as opções literárias que lhe subjazem serem sustidas pelo caráter effetuale da estratégia pessoal e política investida”, o que não implica “a subalternização do literário relativamente ao pessoal e ao político” (p. 180). Mais próxima do nosso tempo, Maria Helena Santana estuda o motivo do grande homem em Eça de Queirós, tendo em conta textos cronísticos e textos ficcionais; e assim, O Conde d’Abranhos condivide o registo da paródia com o da biografia modelar. Por fim, Fernando Catroga reflete sobre a teoria da História de Oliveira Martins e sobre o recurso ao mesmo motivo dos grandes homens: quando o objeto do historiador “diz respeito às encarnações subjetivas, ou melhor, quando visa uma espécie de terceiro nível, aí o historiador deve ir «buscar aos carateres e às biografias» o fio dramático que liga as diversas épocas, pois é nessa análise mais microscópica, exemplarmente consubstanciada na vida dos «grandes homens», que a história melhor se revela como teatro” (p. 280).

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