Os Mártires da Literatura

Em “História Literária e Personagens da História. Os Mártires da Literatura” procuro conjugar dois campos de análise: o da história literária, enquanto disciplina antiga, já renovada e agora revisitada; o da teoria e análise da personagem, entendendo-se que esta categoria da narrativa indiretamente pode ser e tem sido objeto de atenção da história literária, tanto em termos temáticos como em termos procedimentais. Tratarei, assim, de observar e de comentar criticamente essa relação, visando  os problemas  levantados por personagens construídas a partir de figuras históricas, sendo  algumas dessas figuras históricas  escritores. O que me leva a recolocar, em diferentes contextos ideológicos, culturais e mesmo pedagógicos, o trabalho da história literária, formulando questões de ordem metodológica e epistemológica que ajudam a traçar o destino da disciplina.

Parto de quatro tópicos  conducentes aos temas que mencionei. Primeiro,  a lógica da paridade na história literária; segundo, alguns pecados da história literária,  já penitenciados e absolvidos; terceiro, a articulação com os estudos narrativos, que é uma minha conveniência estratégica; quarto, duas especificações conceptuais que  estabelecerei antes de avançarmos.

Falo aqui em lógica da paridade a partir de uma reflexão que há alguns anos empreendi e que era sugerida por este título: “It Takes Two to Tango: A Construção da Memória Literária” (em Maria da Penha C. Fernandes (coord.), História(s) da Literatura.  Coimbra: Almedina,  2005).  Uma hipótese de significado que coloquei e em que insisto:  o equilíbrio que rege o princípio da paridade (ou do par) condiciona uma certa conformação histórico-literária e pré-determina o nosso imaginário cultural. Outra hipótese:  a dualidade do par pode instaurar uma dinâmica de oposição e mesmo de conflitualidade, capaz de ser entendida, por outro lado, como tendência para a complementaridade.

Tolstoi, por Ilya Repin (1901)

Tolstoi, por Ilya Repin (1901)

Segundo tópico: o dos pecados da história literária, amargamente vividos e testemunhados pela  geração que,  pelos anos 60 e 70 do século passado, tratou de matar o autor para ressuscitar o texto. Dito  desta forma simplificada parece fácil, mas convém não esquecer que os tais  anos 60 não foram amenos, do ponto de vista da epistemologia dos estudos literários; e a tal geração belicosa tinha, afinal, boas razões para fazer o que fez. Algum do ensino da literatura que então se praticava era em grande parte biografista, fundado em modelos oitocentistas herdados de Sainte-Beuve e de Gustave Lanson,  sobrecarregado de minudentes questões anedóticas (Gil Vicente nasceu onde, afinal? Terrível e irresolvida questão…), era causalista e duplamente finalístico. E assim, a história da literatura parecia caminhar para um fim (um final feliz, esperava-se), ao mesmo tempo  que escondia um outro fim (uma finalidade), este nada cândido, de intuito ideológico e legitimador.

Terceiro tópico: com a ajuda daquela imagem cinematográfica, encaminho a reflexão acerca da história literária para o domínio dos estudos narrativos. A esta  razão estimável mas talvez insuficiente, junto outra, mais lógica: se tudo são, afinal, histórias, a da literatura e as que a literatura conta, então sejam todas elas acolhidas no regaço  plural  e teoricamente muito amplo dos estudos narrativos.  Antecipando um pouco do que aí vem: para a história literária pura e dura, quem é mais personagem,  Miguel de Cervantes  ou Dom Quixote? Flaubert ou Madame Bovary? Tolstoi ou Anna Karenina?

Keira Knightley como Anna Karenina

Keira Knightley como Anna Karenina

Último tópico, porventura dispensável: distingo história literária de história da literatura – ou melhor, histórias da literatura. Como quem diz: falo na história literária como disciplina e método de trabalho, com os seus avanços e os seus recuos,  as suas operações e as suas ferramentas, os seus doutrinadores e os seus cultores (por exemplo: a história literária lansoniana); e falo na história da literatura como sua concretização, normalmente corporizada em grossos volumes que incidem sobre uma literatura específica. É o caso da Histoire de la littérature anglaise de Taine, da História da literatura brasileira de Massaud Moisés ou da História da literatura portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.

C. Reis,  “História literária e personagens da História: os mártires da literatura”, in M. Eunice Moreira (org.), Percursos críticos em história da literatura. Porto Alegre: Libretos, 2012 (Ler texto integral)

3 comentários

Filed under História literária

3 responses to “Os Mártires da Literatura

  1. REGINA DA COSTA DA SILVEIRA

    O texto integral não me está sendo permitido (vou à PUCRS comprar o livro!). O debate sobre a morte do autor é instigante.

  2. Raquel Trentin

    Muito pertinente a discussão… já indiquei para um aluno que está escrevendo seu trabalho final de graduação sobre o Camões de “As naus”.

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