Herói e anti-herói

Fixo-me nas imagens que, numa cultura mediática que vive delas, valem por muitos manifestos políticos e por não poucas proclamações ideológicas. E fazem heróis coletivos.

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Na final do Mundial de 1982, aos 69 minutos de jogo, o italiano Marco Tardelli marcou o segundo golo à Alemanha  e correu para a glória, porque o jogo estava praticamente ganho. Aquilo que nos contam as imagens  de euforia que deram a volta ao mundo  não é tanto o golo de Tardelli, mas a vitória da latinidade contra os povos do Norte. Os italianos vinham de um Estado unificado por Garibaldi, mas também pelo desporto-rei; para além disso, eram bonitos, elegantes, ágeis e tinham nomes musicais – Graziani, Gentile, Conti, Oriali, Altobelli. Do outro lado estavam os germânicos, louros e  hirsutos, com nomes que aos ouvidos do sul soavam quase como bárbaros,  Horst Hrubesch, Karl-Heinz Rumenigge, Paul Breitner, Harald Schumacher. Venceram os latinos e por uma vez não valeu aquela máxima mais tarde inventada por um jogador inglês, Gary Lineker: “O futebol é um jogo simples: são onze contra onze e no fim ganham os alemães.”

Quando não ganha quem se espera,  o herói é vencido e com ele as ilusões que lhe havíamos confiado. Dentro e fora do campo, fisicamente ou moralmente. Como que atingido por uma  maldição aziaga, Fernando Pascoal das Neves, de alcunha Pavão,  caiu morto no Estádio das Antas ao minuto 13, num jogo da jornada 13, num dia chuvoso de Dezembro de 1973,  a três dias de cumprir 26 anos, duas vezes 13. Antes e depois dele outros heróis ficaram por cumprir, porque tombaram em plena competição. O primeiro de todos,  na nossa memória coletiva, foi talvez o maratonista Francisco Lázaro, há alguns anos evocado como personagem de um romance de José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos (2006). De todos podemos dizer como Fernando Pessoa, na morte de Mário de Sá-Carneiro: “Morre jovem o que os Deuses amam”.  Como quem diz: há heróis desportivos que se vão, talvez porque eram grandes de

Francisco Lázaro

Francisco Lázaro

mais para a sua precária condição de mortais. Conta-se que, na Roma antiga, durante o desfile da vitória, o general vencedor era acompanhado por um escravo que lhe murmurava ao ouvido, por entre as aclamações da multidão, palavras de prudente lembrança de uma condição humana que nenhum herói deve esquecer. Os deuses podiam ficar invejosos do excesso da glória. Outros excessos, por causa da fama atingida ou a atingir, derrubam moralmente heróis desportivos do nosso tempo, desavisados dos riscos  da ambição: os casos  de Lance Armstrong e de Oscar Pistorius (este com o sobrenome  inquietante de Blade Runner)  dispensam comentários, a não ser dizer que a derrota moral parece ainda mais penosa  do que a derrota desportiva. Esta, para todos os efeitos, faz parte das leis do jogo.

É  da queda do herói enquanto atleta cumpridor das leis do jogo que quero falar. Para o fazer, chamo à reflexão a personagem que se destaca na grande narrativa que é o jogo de futebol: o guarda-redes. Tal como o herói romântico, ele está solitário entre os postes e é diferente dos demais: equipa-se de modo distintivo e  segue regras próprias que às vezes transgride, por exemplo, quando vem à área adversária ou quando ousadamente finta o avançado  que o ameaça.  Na marcação do penalty, já se sabe: é a solidão total do condenado à execução. Nesse momento em que o tempo parece deter-se, trava-se um  duelo que de um dos lados tem sempre o mesmo protagonista, herói celebrado quando defende, anti-herói humilhado quando é batido. Foi um pouco disso que Peter Handke  transpôs metaforicamente para uma novela  intitulada A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty (1970), depois passada ao cinema por Wim Wenders; e foi certamente a pensar no  título de Handke que o antigo futebolista argentino Jorge Valdano escreveu sobre “O penalty sem angústias”, dizendo dele: é “um golo por acabar (e que pode acabar mal)”. Para o guarda-redes, antes de mais, para a equipa e para tudo o mais que aquele singular jogador carrega nos ombros, em segundos decisivos, sem apelo nem retorno.

Barbosa, final do Mundial de 1950

Barbosa, final do Mundial de 1950

Não foi preciso um penalty para que, numa tarde de julho, um guarda-redes passasse de herói a anti-herói em frações de segundo. Foi na final do Mundial de 1950, quando um pequeno país venceu a grande nação que fazia do futebol uma causa coletiva e um emblema de afirmação identitária. O Uruguai-David bateu o  Brasil-Golias, com um golo do avançado Alcides Ghiggia marcado ao guarda-redes Barbosa. Faltando dez minutos para as cinco da tarde e apenas onze para o jogo terminar, nascia no Maracanã, sob o olhar gelado de perto de 200 mil pessoas, um anti-herói, o guarda-redes, naturalmente; por causa dele e só por causa dele, desatava-se o pranto num país inteiro, que se tinha por vencedor antecipado. A culpa, carregada até ao fim da vida por aquele atleta negro nascido em Campinas, era irremissível. Não foi o defesa que falhou o desarme, não foi o médio que desajudou o defesa. Quem perdeu e para sempre, foi o guarda-redes, arrastando no seu fracasso todo um povo, mais as suas ilusões desfeitas e as suas alegrias frustradas.

Barbosa3

             (C. Reis, extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo”, II   Jornadas de Comunicação e Desporto; CEIS20/Universidade de Coimbra, 25.2.2013).

5 comentários

Filed under Anti-herói, Guarda-redes, Herói

5 responses to “Herói e anti-herói

  1. Graça Trindade

    Muito interessante! A relação entre o guarda-redes e o herói romântico – “Na marcação do penalty, já se sabe: é a solidão total do condenado à execução.” – bem visto!

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