De que falamos, quando dizemos de uma personagem que é um herói? Alinho de seguida alguns tópicos de reflexão, para uma caracterização do herói.
Primeiro: o herói é um componente estruturante de algumas narrativas, cuja enunciação se processa em função dessa figura em quem se centram os conflitos e sobre quem pendem ameaças que só ele vence. Acentuo esta dimensão narrativa do herói, nestes termos: sem narrativa não há herói. Aquilo que o legitima é um trajeto de sobre-humana vitalidade, contra obstáculos e forças hostis; desenrola-se esse trajeto num tempo potencialmente narrativizado que o herói atravessa, em movimento de busca e de afirmação do seu estatuto de herói, com maior intensidade e dramatismo quando esse estatuto se coloca sob o signo da transgressão de normas ou de estatutos sociais. Num ensaio célebre, György Lukács falou em herói problemático a propósito do protagonista de Le Rouge et le Noir de Stendhal; e notou que o que naquele romance se conta é a “história dessa alma que vai pelo mundo para aprender a conhecer-se, procura aventuras para nelas se testar e, por essa prova, atinge a sua medida e descobre a sua própria essência” (G. Lukács, La théorie du roman. Paris: Gonthier, 1970, p. 85).
Segundo: o herói não é atemporal nem a-histórico, pelo que não se manifesta do mesmo modo em todas as épocas. O herói da Antiguidade Clássica povoada por mitos ou aqueloutro herói modelado por ela no século XVI, confina com a condição divina e chega a ofender os deuses, quando quase os iguala: por isso, Baco ataca os novos heróis que, em navegação ousada, tendem a obscurecer o prestígio dos deuses (penso, evidentemente, do que se encontra no canto I, 30, d’Os Lusíadas: “O padre Baco ali não consentia/No que Júpiter disse, conhecendo/Que esquecerão seus feitos no Oriente/Se lá passar a Lusitana gente.”). Fernando Pessoa, já noutro tempo, expressou a incómoda vizinhança de deuses e heróis terrenos, com estas palavras enigmáticas: “Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.” http://arquivopessoa.net/textos/2968 ).
Terceiro: o herói não é uma qualquer personagem narrativa. Na palavra que o designa ressoa, de forma bem audível, “uma tonalidade própria que resulta do facto de o vocábulo herói provir do vocabulário religioso, cultural, antropológico, anterior à sua inclusão no da crítica literária” (L. Queféllec, “Personnage et héros”, in P. Glaudes e Y. Reuter (eds.), Personnage et histoire littéraire. Toulouse: Presse Univ. du Mirail, 1991, p. 242). Aquela tonalidade não se perde por completo, mesmo quando se dá a secularização do herói nas narrativas subsequentes à laicização das sociedades ocidentais, a partir do século XVIII. Exemplo expressivo: Leopold Bloom é um anti-herói banalizado pelo quotidiano burguês de Dublin, tal como o romance de Joyce o representou; do Ulisses homérico resta a memória desgastada de um heroísmo mítico, outrora roçando o poder dos deuses, poder que reconhecemos anacrónico, mas não perdido para sempre, quanto mais não seja como motivo de ironia nostálgica ou de revisão modernista.
Quarto: certos tempos históricos são especialmente propícios à heroização das personagens narrativas, por razões que têm que ver com as cosmovisões que as enquadram. O renascimento foi um desses tempos, potenciado por filosofias de vida, por ideais de beleza e por princípios de emancipação e de plenitude humana que levaram à redescoberta do homem como herói do seu tempo, viajante por espaços inexplorados e renovador do conhecimento de si e do mundo. Por sua vez, o romantismo associou o porte heróico à reivindicação do individualismo como atitude existencial, ato de rebeldia contra a “normalidade” burguesa ou busca de um absoluto que o comum dos mortais não entendia.
Quinto: o herói enquanto fulcro da narrativa interpela o leitor: “O herói provoca a compaixão, a simpatia, a alegria e a dor do leitor”, disse um dos formalistas russos, Boris Tomachevski, em 1925; e acrescentou: “A relação emocional decorre da construção estética da obra e só nas formas primitivas essa relação coincide obrigatoriamente com o código tradicional da moral e da vida social” (apud T. Todorov (ed.), Théorie de la littérature. Paris: Seuil, 1965, p. 295). A partir daqui, concluo: a fenomenologia do herói decorre da interação de certas atitudes recetivas (emoções, preconceitos, imagens adquiridas, molduras comportamentais) com os dispositivos retórico-narrativos que procedem à figuração do herói. Em última instância, a concretização do herói, no sentido fenomenológico da expressão, depende de atos cognitivos que investem na leitura do relato muito mais do que a letra do texto revela.
Carlos Reis



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