A pintura de José Santa-Bárbara (3)

Nunca te olharei por dentroVolto ao Memorial do Convento, às Vontades de José Santa-Bárbara e a figuras históricas que são reclamadas pelo escritor e, depois dele, pelo pintor. Com elas e a par delas, emergem outras figuras, congenitamente ficcionais estas últimas, necessárias porém para que se faça justiça, mais de dois séculos depois, ao que terá sido o seu trabalho de “fazedores do capricho”, ou seja, de construtores de um enorme convento que o rei D. João V, na sua frívola megalomania, mandou erigir.

Há um passo do Memorial do Convento em que metadiscursivamente (e bem de acordo com o ethos pós-modernista) o narrador se refere à necessidade de redizer o já dito, mas agora num registo que mostre o que antes ficou oculto; e isto  porque, segundo o escritor, a instância e o testemunho historiográficos (“não mais que o primeiro livro”) legaram também  “uma grande zona de obscuridade” que deve agora ser iluminada. É quando, depois de descrever o árduo trabalho de quantos desbastam a pedra, a transportam e a trabalham, o narrador declara: “São trabalhos já ditos, que mais facilmente se recapitulam por serem de força bruta, porém, é causa da sua reiteração não consentir que esqueçamos o que, por tão comum e de tão mínima arte, se costuma olhar sem mais consideração que distraidamente vermos os nossos próprios dedos escrevendo, assim de um modo e outro ficando oculto aquele que faz sob aquilo que é feito” (Memorial do Convento. Lisboa: Caminho, 1982, p.  239).

Tal como aqui e em prol de uma memória renovada, torna-se necessário, então, rever figuras históricas e fazer com que, no universo da ficção, elas coabitem com entidades ficcionais, de modo a que “aquilo que é feito” (o convento) não condene ao esquecimento “aquele que faz” (quem trabalhou, a mando do poder real consubstanciado em D. João V). Aquela coabitação configura, assim, o que John Woods, em  The Logic of Fiction, chamou modalidades mistas de existência. 

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

De acordo com aquele conceito, o rei D. João V e o músico Domenico Scarlatti são seguramente personalidades históricas, confirmadas como tais em testemunhos diversos; Baltasar  Sete-Sóis e Blimunda são entidades ficcionais, sem outra existência que não seja a que o mundo possível ficcional de um romance  consente, o que não quer dizer que delas se faça uma leitura indiferente a possíveis fontes em que elas (em especial a segunda) se baseiam; por sua vez, Bartolomeu Lourenço, assim denominado no romance, revela-se-nos numa situação singularmente ambivalente: com o nome que tem no Memorial do Convento, ele assume  uma condição ontológica que tendemos a entender como sendo similar à de Baltasar e de Blimunda, com quem, de resto ele convive e sobre quem detém um claro ascendente. Mas ao ser Bartolomeu Lourenço quem concebe uma passarola voadora de que existem notícias algo fantasiosas, permitimo-nos reconhecê-lo como personalidade historicamente convalidada: trata-se do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido no Brasil em 1685 e falecido em Espanha, em 1724. Que conste desde já o seguinte e para memória futura: o nome de batismo Bartolomeu foi completado com o patronímico Lourenço e só mais tarde com o sobrenome Gusmão; para além disso, existe um retrato de Bartolomeu de Gusmão, datado de 1902 e pintado no Brasil por Bernardo Calixto, retrato que obviamente não está suportado pela observação de visu.

C. Reis (a publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento. No cabeçalho deste blogue são reproduzidos pormenores de quadros de Vontades, por J. Santa-Bárbara).

2 comentários

Filed under José Santa-Bárbara, José Saramago, Memorial do Convento

2 responses to “A pintura de José Santa-Bárbara (3)

  1. cristina.a.mello@gmail.com

    Achei muito interessante!

  2. lista de email

    thanks friend.

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