A pintura de José Santa-Bárbara (2)

Os passatempos d'El-Rei

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No breve texto que escreveu para o catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento,  José Saramago sugere que a questionação empreendida por José Santa-Bárbara, pela via da pintura, prolonga o romance e aprofunda a indagação da História que nele pode ler-se. Destaco três ideias desse texto: uma, Santa-Bárbara não pinta a História, mas sim uma sua representação literária, ou seja, a ficção meta-historiográfica chamada Memorial do Convento; outra, o pintor “representou e sublinhou a figuração humana do Memorial do Convento”, quer dizer, valorizou nele o processo retórico-narrativo de construção de personagens; outra ainda, a pintura como re-figuração permitiu a Saramago superar aquela espécie de persistente inibição que o fez retardar por algum tempo a autorização para adaptações cinematográficas (para estas, não para as teatrais ou para as operáticas) do Memorial do Convento. “Não quero ver as caras das minhas personagens”, dizia Saramago; mas agora, vendo as telas de Santa-Bárbara, “sei, finalmente, como era Blimunda” (p. 11). O que quer dizer que a pintura deu à personagem o rosto que o romance mal havia esboçado.

Curiosamente, é um outro escritor, Orlando da Costa, quem, igualmente num texto do catálogo, nota: “Neste conjunto de quadros impõe-se sobretudo a figuração, como uma ordem a que o pintor obedece com um sentido de liberdade instrumental de criatividade interpretativa, figurantes sem voz, personagens  carregadas de silêncio e vontades, vontades, mesmo em trabalhos forçados” (p.  24). O termo figuração está dito e tem um alcance teórico e metodológico que hoje tratamos de acentuar, no que toca ao seu significado conceptual; no caso de Santa-Bárbara, o movimento de figuração confirma a relevância das personagens como imagens disponíveis para uma releitura cuja dimensão fenomenológica é salientada num outro texto do catálogo, do também pintor Rogério

José Santa-Bárbara

José Santa-Bárbara

Ribeiro. Diz Ribeiro: os quadros de Santa-Bárbara são uma “construção paralela, um outro tecido, associando o desígnio de dar forma, onde cada um já pôde construir as inevitáveis imagens mesmo que as não represente”; e assim, se o pintor pôde propor um “certo rosto das personagens” (p.  31), não é essa proposta outra coisa a não ser o resultado de uma leitura da História e de algumas das suas personagens agora refiguradas, desde logo em confronto com as imagens que a leitura de cada leitor tratou de constituir. Melhor: trata-se de uma leitura da leitura da História, pois que ela se centra num romance que só o foi a partir da pesquisa meta-histórica que o escritor José Saramago levou a cabo, para proceder à figuração ficcional de D. João V.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento. No cabeçalho deste blogue: pormenores de quadros da exposição Vontades).

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Filed under José Santa-Bárbara, José Saramago, Memorial do Convento

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