Os viventes de Jorge Amado

 

3ª edição (1945) de Capitães da Areia

No  Jorge Amado  dos primeiros romances, em especial Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar Morto (1936) e Capitães da Areia (1937), avulta  a representação de personagens oprimidas, de cenários sociais violentamente injustos e de tensões interclassistas que o ideário socialista do romancista  articulava com o imaginário baiano do candomblé, das crenças populares, do mar e dos pescadores.

Mesmo à medida que se vai suavizando na ficção de Amado a componente ideológica em favor da “mitologia” nordestina, jamais desaparece dela a preocupação com a denúncia da injustiça e do coronelismo que dominavam uma das regiões mais pobres do Brasil; os romances do ciclo do cacau, ou seja, o mencionado Cacau e também Terras do Sem Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944) são disso provas vivas. Para o romancista, tal como o diz em palavras insertas no pórtico do terceiro daqueles títulos, “este romance e o anterior, Terras do Sem Fim, formam uma única história: a das terras do cacau no sul da Bahia”. E acrescenta: “Nesses dois livros tentei fixar, com imparcialidade e paixão, o drama da economia cacaueira, a conquista da terra pelos coronéis feudais do princípio do século, a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem” (citação a partir da edição Dom Quixote; Obra Conjunta).

Com “imparcialidade e paixão” (um binómio difícil de equilibrar) Jorge Amado viveu, escreveu e bateu-se por causas sociais, em épocas políticas agitadas e perigosas. Eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro em 1945,  Amado conheceu o  exílio  em períodos em que Getúlio Vargas, antes e depois daquele ano, dominou a  conturbada vida política brasileira. Depois de deixar o Partido Comunista, em 1955 (curiosamente no ano anterior ao XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que causou forte abalo na fileiras comunistas em várias partes do mundo), Jorge Amado escreveu alguns dos seus romances mais populares, com destaque para Gabriela, Cravo e Canela (1958) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966).

           Em ambos perpassa um tom de irrisão e de sátira que não desmancha o sentido crítico que neles predomina. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos teve o romancista que se prevenir contra  suspeitas que regularmente recaem sobre quem funda a ficção em “experiência e busca”;  o que aconselha a prevenir o leitor: “nenhum vivente aqui, nesta obra de ficção, se encontra retratado” (do “Nariz de cera de amigos e xeretas”). Inverta-se, então, o ónus da tentação que leva a identificar pessoas reais com personagens ficcionais e fique o aviso: a responsabilidade da tal eventual identificação é de quem “anda por aí a parecer-se com figuras de romance como se isso fosse ocupação de gente séria”. Falta apenas um documento que vem reforçar a emancipação e a lógica de autonomia da ficção: um bilhete que dona Flor escreve ao romancista  em tom  coloquial, levantando a ponta do véu que cobre os segredos culinários e amorosos que o romance trata de contar.

 

De C. Reis, “No espelho da história literária”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1092, de 8 a 21 de agosto de 2012, pp. 9-10.

 

1 Comentário

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One response to “Os viventes de Jorge Amado

  1. Ariana

    Há muitas combinações perfeitas no mundo, e a combinação entre a crítica às realidades negativas, cacau e amor é uma delas, em especial na literatura, pois em palavras escritas, os sentimentos despertam-se com mais intensidade que por meras palavras soltas.

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