Eppur si muove!

As personagens movem-se? Depende. As personagens de ficção movem-se dentro das (aliás porosas) fronteiras da ficção (passeiam, dançam, lutam, amam-se) e migram até para além delas, quando as reencontramos nas nossas vidas: em Oviedo, em Lisboa, no Rio de Janeiro ou em Embu das Artes, São Paulo. Outros movimentos migratórios: D. João V move-se do século XVIII português para “dentro” do Memorial do Convento de José Saramago e chega ao nosso tempo; e o padre Bartolomeu de Gusmão transporta a passarola para o cenário do romance,  aparecendo lá, contudo, com outro nome que, aliás, também é o dele: Bartolomeu Lourenço. O que nos obriga a perguntar: é o mesmo? A resposta é obviamente ambivalente: sim e não.

Outros movimentos mais ousados: os das personagens que em princípio deveriam estar imobilizadas numa imagem estática, seja pictórica, fotográfica ou outra. Um texto de Marie-Laure Ryan sobre narração em contexto mediático (“Narration in Various Media”, em Peter Hühn et alii, Handbook of Narratology. Berlin/New York: Walter de Gruyter, 2009) diz-nos que as imagens, apesar de tudo, possuem alguma força narrativa, quando comparadas com a agilidade e com o potencial de narratividade da linguagem verbal; nas representações icónicas em políptico ou similar, a configuração de uma ação em diversas cenas confirma aquele vigor narrativo, antepassado ilustre da banda desenhada, que é consabidamente mais ousada e exigente quando não acompanhada por um texto verbal (os balões, é claro).

Benozzo Gozzoli, A dança de Salomé

Ryan evoca a este propósito uma tela de Benozzo Gozzoli, “A dança de Salomé e a decapitação de São João Batista” (1461-62). Nela vemos três momentos de uma ação conhecida: a sedução de Herodes Antipas por Salomé que dança e que depois oferece a sua mãe Herodias  a cabeça do profeta, porque o tetrarca cumprira a promessa feita.  Só que a sequência temporal e o movimento das personagens decorre num mesmo quadro, fragmentado, contudo, em três microcenários: o da dança, o da decapitação e o da oferta. Assinala Ryan: “os olhos não leem  linearmente a história contada pelo quadro (i.e., da esquerda para a direita), mas seguem um trajeto circular, da direita para a esquerda e para o centro”; de tal modo, que “um espetador não familiarizado com a história bíblica seria incapaz de descodificar a lógica narrativa”.

Do mesmo modo, o movimento dos cegos que caem, na famosa tela de Pieter Bruegel (o velho), de 1568, será célere e imparável, na medida em que a “leitura” do quadro for capaz de evocar o relato bíblico de Mateus: “Deixai-os, são cegos guias de cegos. Se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco.” Num outro contexto e mais próximo de nós:  no final d’Os Maias,

Pieter Bruegel, A parábola dos cegos

durante a sombria e quase sinistra visita de Carlos da Maia e João da Ega ao Ramalhete desabitado, reaparece num quadro a condessa de Runa, que aliás só assim, como personagem retratada, surgira no romance. Agora, quebrando a imobilidade que a amarra à imagem e ao tempo recôndito a que pertence, a personagem  aparenta, aos olhos de Carlos, um movimento que diz tudo acerca do destino da família: “No salão nobre os móveis de brocado, cor de musgo, estavam embrulhados em lençóis de algodão, como amortalhados, exalando um cheiro de múmia a terebintina e cânfora. E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça…” (Os Maias, cap. XVIII).

Carlos Reis

3 comentários

Filed under Benozzo Gozzoli, Os Maias, Pieter Bruegel

3 responses to “Eppur si muove!

  1. Marisa

    Uma modesta e pequenina nota talvez à margem. A imobilidade pode ser também travejamento, espinha dorsal da personagem de teatro e inserir-se numa gramática. Penso em dois casos concretos e muito impressivos, pela mão de Beckett. A Cadeira de Baloiço (na fabulosa representação de Céu Guerra) e À espera de Godot, em que a repetição se faz estatismo e tempo aprisionado.

  2. Cristina Mello

    Vou mostrar este texto a uma Estagiária de Português/Espanhol, que vai abordar o uso da imagem na aula de Português. As pessoas que estudam a relação entre imagem e literatura precisam de pensar o funcionamento dos dois códigos semióticos.

  3. Em falar de artistas que retrataram Salomé, gostaria de fazer uma observação em torno de Henri Regnault que a pinta com a dualidade, inocência, numa expressão quase angelical, e um sorriso de mulher libertina.

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