A sobrevida das personagens (2)

Dom Quixote, por Gustave Doré

O Dom Quixote de Gustave Doré não é o mesmo Dom Quixote de Pablo Picasso, desenhado este numa gravura famosa de 1955 e com um traço, digamos, modernista que bem o distingue da atmosfera e dos valores românticos que, no primeiro caso, envolviam o Cavaleiro da Triste Figura. Entre ambos está o Dom Quixote de Miguel de Unamuno; enquanto exegeta da personagem e também em função do processo de figuração que esboçou na sua Vida de Don Quijote y Sancho, Unamuno pôde sublinhar, no prólogo à segunda edição daquele ensaio, que a autonomia da personagem determina a sua prevalência em relação ao autor e a sua condição de quixotista e não de cervantista. Diz Unamuno: “No creo deber repetir que me siento más quijotista que cervantista y que pretendo libertar al Quijote del mismo Cervantes, permitiéndome alguna vez hasta discrepar de la manera como Cervantes entendió y trató a sus dos héroes, sobre todo a Sancho.” E acrescenta: “Y es que creo que los personajes de ficción tienen dentro de la mente del autor que los finge una vida propia, con cierta autonomía, y obedecen a una íntima lógica de que no es del todo consciente ni dicho autor mismo. (M. de Unamuno, prólogo à segunda edição de Vida de Don Quijote y Sancho, 1914).Assim é. E assim o reconhecem, por outras palavras, quantos reencontram personagens famosas, sempre vivas e sempre renovadas, quando a leitura que delas é feita atinge um nível elevado de argúcia hermenêutica. Lembro palavras de Pirandello, quando o grande

´Paolo e Francesca da Rimini, por G. Doré

dramaturgo italiano nos diz que sempre que lemos a Divina Comédia “deparamos com uma Francesca viva”. E acrescenta: “Se voltássemos a ler ainda o episódio cem mil vezes, constataríamos, cem mil vezes, que Francesca fala as mesmas palavras, porém sem repeti-las mecanicamente, mas sempre como se fosse a primeira vez, isto é, com uma paixão tão viva e nova que Dante sentir-se-ia cada vez morrer novamente de compaixão. Tudo o que tem vida, justamente pelo fato de viver, possui forma e, por isso, está sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém, acontece o contrário: ela se perpetua viva, justamente porque é a forma” (L. Pirandello, prefácio a Seis Personagens à Procura de Autor).

(C. Reis, “Estudos Narrativos: a questão da personagem ou a personagem em questão”, em composição)

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