A sobrevida das personagens (1)

A sobrevida das personagens de ficção, em boa parte alimentada por sucessivas figurações, pode levar a consequências muito díspares: as leituras imbecis de uma nova figuração são devastadoras; outras leituras podem ser, entretanto, estimuladas por figurações reajustadas a contextos sócio-culturais muito diversos daqueles que a personagem (e o seu autor) originalmente conheceram. Don Juan, Robinson Crusoe ou Tarzan – todos eles tendo derivado da literatura para o cinema, para a ópera, para a banda desenhada, etc. – têm revelado uma vitalidade que se explica também pela pertinência de procedimentos de figuração ajustados a expectativas e a contextos recetivos próprios, bem como a inovadoras soluções retóricas e de casting. A grande personagem de Tirso de Molina está bem viva, mas é já outra em Don Giovanni ou o dissoluto absolvido de José Saramago. E não é verdade que há quem prefira (é o meu caso) o coronel Kurtz de Apocalipse Now, composto de forma sublime pelo rosto trágico e pela fala arrastada de Marlon Brando, ao “ser de papel” original que lemos em Heart of Darkness?

A vitalidade das personagens, potenciada por sucessivos atos de figuração, é indissociável de propósitos de ordem ética, moral e ideológica, beneficiários diretos da autonomização das ditas personagens, permitindo dilatar consideravelmente as virtualidades semântico-pragmáticas que elas encerram. São essas virtualidades que nos desafiam a conviver com personagens ficcionais que não abolimos da nossa memória, mesmo quando muito daquilo que no seu tempo parecia importante já desapareceu: neste aspeto e como Eça lembrou, nada mais fugaz do que a política e “as multidões de politiquetes e de politicões enroflados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta”; sendo improvável que “alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Cánovas, dos Bright”, continua o grande escritor, é bem seguro que de Emma Bovary continuamos a saber “a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia à quinta-feira na Hirondelle para ir encontrar Léon a Rouen!” (E. Queirós, carta-prefácio aos Azulejos, do Conde de Arnoso)

Seis Personagens à Procura de um Autor; encen. de Emiliano Bronzini

Em última instância, é a capacidade de autonomização das personagens que nos conduz àquele nível de transcendência que está no horizonte dos grandes criadores. Falo, evidentemente, daqueles escritores, sejam eles narradores ou dramaturgos, que “não aceitam representar figuras, casos e paisagens que não estejam embevecidos, vamos dizer assim, por um sentido particular da vida, com que tudo assume um valor universal” (L. Pirandello, prefácio a Seis Personagens à Procura de um Autor).

(C. Reis, de “Estudos narrativos: estado da questão e a questão da personagem”, em composição)

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Filed under Casting, Figuração, Sobrevida, Transcendência

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