Sentido e efeitos da personagem

Uma teoria semântica da personagem faz dela uma categoria nuclear na construção do que chamamos mundos possíveis ficcionais; sendo o que são, os mundos possíveis ficcionais não devem ser entendidos, todavia, nos termos de uma sua plena autonomia em relação ao mundo real e ao conhecimento empírico que dele temos. A radicalização da autonomia que eles reclamam – mesmo quando parecem apontar nesse sentido – traduzir-se-ia numa absurda conceção dos textos ficcionais como textos autotélicos e desligados do mundo.

Carmelo Gómez e Aitana Sánchez Gijón em La Regenta, adaptação para TV por Fernando Méndez Leite (1995)

O erro de um tal desligamento acentua-se quando falamos do realismo e quando nos seus romances observamos, como que em jeito de ponderação metaficcional, reações e comportamentos diretamente decorrentes de modos culturais de existência das personagens como leitoras de romances e espectadoras de teatro. Emma Bovary e Luísa, sua descendente em linha direta, não leem impunemente Walter Scott: aquele cavaleiro com uma pluma branca que galopa sobre um cavalo negro e que Emma deseja (cap. VI de Madame Bovary), tende a tornar-se real e (literalmente) palpável, mas sem a pluma nem o cavalo, quando a personagem amadurece, num cenário provinciano pouco propício a tais adereços. E em La Regenta, o Don Juan Tenorio de Zorrilla não é, para Ana Ozores, presença inócua; percebe-o bem o astuto Magistral, atento aos sentidos (à sensualidade) da confessada, quando se faz porta-voz nem mais nem menos do que da palavra de Deus pai: “Hija, pues para acordarte de mí no debes necesitar que a Zorrilla se le haya ocurrido pintar los amores de una monja y un libertino; ven a mi templo, y allí encontrarán los sentidos incentivo del alma para la oración, para la meditación y para esos actos de fe, esperanza y caridad que son todo mi culto en resumen…” (Clarín, La Regenta, cap. XVII).

O que estes comportamentos e decorrentes desafios mostram é que a semântica das figuras ficcionais (e antes de mais, as que são “lidas” por personagens que o realismo europeu consagrou) desenvolve-se e aprofunda-se numa pragmática da ficção que aos propósitos ideológicos do realismo muito convém. A personagem Don Juan não chega a passar fisicamente para o lado da espectadora Ana Ozores; e Luísa não é levada por Armand (hélas!) a passear no Bosque de Bolonha, cujos fascínios a estreiteza lisboeta do Passeio Público mais realçava. Mas o impulso metalético existe e é ele que, também por causa da desatenção de amigos e de maridos, contribui para traçar a sorte funesta daquelas mulheres – como diria o conde de Monte Redondo, do drama Honra e Paixão. Não é Ernestinho Ledesma, autor do drama, é o provinciano Artur Corvelo, nos “começos duma carreira” de escritor, quem se vê compelido a alterar, no seu drama Amores de Poeta, o nome de uma personagem, a Duquesa de S. Remualdo, porque uma embaraçosa semelhança onomástica ameaçava a respeitabilidade da Condessa de S. Remualdo: “Artur, atarantado, balbuciou: // – É duquesa. // – Duquesa, ou condessa. É um título da casa, é um título antiquíssimo. Sou relação da família, pessoas da primeira sociedade… (E. de Queirós, A Capital!, cap. IV).

O escritor neófito está, então, avisado: há componentes da personagem (o nome é um deles, mas há outros talvez mais traiçoeiros) que induzem procedimentos de identificação potencialmente ofensivos. Do mesmo modo, as Emmas, as Luísas e as Anas Ozores de carne e osso que leram Madame Bovary, O Primo Basílio e La Regenta ficam a saber que a permeabilidade entre mundos ficcionais e vidas reais gera movimentos de vaivém que podem ter consequências (de novo) funestas.

Carlos Reis, “Figurações da personagem realista: os bigodes e os rasgos de Tomás de Alencar”. Congresso Internacional “O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista”; Coimbra, Centro de Literatura Portuguesa da Fac. de Letras, 10 a 13.11.2011. 

 

 

1 Comentário

Filed under La Regenta, Realismo, Semântica da ficção

One response to “Sentido e efeitos da personagem

  1. Mirella Márcia

    Sobre “La Regenta, Realismo, Semântica”
    A reflexão limita a euforia de certos comentários que, voltados exclusivamente aos diálogos entre textos, esquecem a inevitável conversa da ficção com o mundo. Certamente, essa posição não é hegemônica nos estudos literários brasileiros. Nào sei exatamente como ocorre no contexto português. De todo modo, nadar contra a corrente, quase sempre é o mais preciso. Mirella Márcia Longo

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