O escritor como personagem

Algumas  breves reflexões  que deixam  interrogações e também propostas de trabalho  relacionadas com  a verificação de que uma categoria narrativa (no caso: a personagem escritor, ou melhor, o escritor realmente existente, configurado como personagem) assume uma presença importante na história literária e na construção do imaginário  que ela alimenta. A proeminência histórico-literária da personagem não deve ignorar o que George Steiner notou: “Si la his­toria es la circunferencia que describe un acto literario, artís­tico o textual para dar forma, este acto, a su vez, modela y anima lo que postulamos como historicidad recapturable y documen­tada”; e acrescenta Steiner: “nuestras reconstrucciones experimentadas del pasado son «ficciones de verdad» gramaticales y textuales. Están talladas a partir de las disponibilidades del pretérito. Ninguna verificación final exter­na está vinculada a ellas” (Presencias reales. Barcelona:  Destino, 1991, pp.  202-03). Como se Steiner nos  dissesse: façamos de Camões e de Shakespeare, de Balzac e de Castro Alves, de Machado de Assis e de Eça, de Camilo Castelo Branco e de Tolstoi, de Baudelaire e de Fernando Pessoa grandes personagens de uma ficção de verdade chamada história da literatura.

A isso somos conduzidos  pelo facto crucial de as propriedades constitutivas da personagem implicarem a narratividade como cenário de enquadramento funcional e discursivo. Assim como a personagem é virtualmente narrativa (isto é: carece do relato para existir), inevitavelmente a história literária que a acolhe  como instrumento heurístico cultiva uma correlata dinâmica narrativa. Chamo a atenção para três aspetos deste ménage à trois personagem-história literária-narrativa. Primeiro: se há componente que incute densidade histórica à personagem esse componente só pode ser o tempo; e é a narrativa que  acentua e dá sentido à vivência humana do tempo  (assim falava  Paul Ricoeur). Segundo: aquilo a que chamo densidade histórica da personagem envolve componentes ideológicos e axiológicos que muito convêm a uma história literária que se não faz de forma inocente; ela escolhe,  hierarquiza e  toma partido. Terceiro: a narratividade que, pela via da personagem (embora não só por ela), enforma a história literária favorece a tensão  própria do grande enredo de que se tece  a história da literatura; e assim, os  escritores não são apenas maiores e menores (o que já não seria pouco), mas revelam-se-nos aos pares, em relações de enfrentamento, de complementaridade ou até de conflitualidade a que não ficamos indiferentes.

Camões na Gruta de Macau, por Desenne (1817)

Ter-se-á notado (ou então nota-se agora) que os nomes que invoquei como potenciais ou efetivas grandes personagens da história literária (Camões, Shakespeare,  Baudelaire, Pessoa, etc.) correspondem a escritores do passado, historicamente “resolvidos” e devidamente classificados e arrumados nas estantes que para eles preparámos. Mais: aqueles são nomes que vêm de  tempos  e de  modos de vida em que abundam omissões e lacunas;  não os  conhecemos  em carne e osso, como aconteceu, acontece ou poderá ainda acontecer relativamente a  Drummond de Andrade,  a Miguel Torga, a Saramago, a Paul Auster, a Lobo Antunes, a Mario Vargas Llosa ou a Gabriel García Márquez. Por  isso, parece fazer mais sentido (ou um sentido diferente) a construção  daquelas outras personagens-escritores cujos pontos de indeterminação (Ingarden) ou brancos (Iser) autorizam a imaginação do historiador a um  trabalho que evita a  pergunta  que um dia  o romancista Eça lançou ao historiador  Oliveira Martins: “Estavas lá? Viste?”  Jorge de Sena escreveu palavras que confirmam, a respeito de Camões, isto mesmo e outras coisas que aqui já disse: “É certo que pouco ou nada se sabe de concreto acerca desse homem, cujo nascimento, cuja vida, cuja morte e cujos restos mortais são duvidosos, maravilhosamente duvidosos. O que é um convite à imaginação” (Trinta Anos de Camões: 1948-1978. Lisboa: Edições 70, 1980, p.  17).

 Carlos Reis, de “História literária e personagens da História.  Os mártires da  literatura”, IX Seminário Internacional de História da Literatura; Porto Alegre: Pontifícia Univ. Católica do Rio Grande do Sul, 4 a 6.10.2011.

Deixe um comentário

Filed under Escritor, História literária

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s