Antonio Candido e a personagem de ficção

Antonio Candido

Antonio Candido

Vale salientar que [o livro A personagem de Ficção (1976) de Antonio Candido] nasceu “de uma experiência de ensino” no “Seminário Interdisciplinar [...] da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo” (CANDIDO, A. et alii,  A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 5), que foi realizada, em 1961, por Antonio Candido e por estudiosos em Filosofia (Anatol Rosenfeld), em Teatro (Décio de Almeida Prado e Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça) e em Cinema (Paulo Emílio Sales Gomes), e que girou em torno da personagem de ficção. Tal Seminário Interdisciplinar tinha a pretensão, como podemos perceber já pela forma como ele foi nomeado por Antonio Candido, de “pôr os estudantes em contato com as várias faces de um problema complexo (o problema existente em torno da personagem de ficção), a fim de que a teoria e a análise, do ponto de vista literário, ficassem o mais esclarecidas possível pela incidência de outros focos (o da Filosofia, o do Teatro e o do Cinema)” (CANDIDO, 1976, p. 6). Dito isso, passemos para as ideias de Antonio Candido em torno da personagem do romance.

Para Antonio Candido, uma obra literária, sobretudo um romance, só se realiza plenamente quando comunica aos leitores “a impressão da mais lídima verdade existencial”, por meio “de um ser fictício” (CANDIDO, 1976, p. 55). Noutras palavras, Candido quis dizer que uma obra literária só se realiza em toda a sua plenitude quando prima pelo princípio da verossimilhança, ou seja, quando procura convencer o leitor, através de suas personagens, de que tudo o que nela vai escrito pode ser verdade; é passível de ser

Maria Fernanda Cândido como Capitu (Globo, 2008)

Maria Fernanda Cândido como Capitu (Globo, 2008)

verdadeiro. Desse modo, o romance estabelece, inevitavelmente, uma relação com o mundo real e, consequentemente, as personagens daquele, uma relação com as pessoas que vivem neste. Assim, um romance é ainda mais verossímil quando as suas personagens trazem em si a mesma complexidade ou a mesma densidade psicológica das pessoas que fazem parte do mundo real. Antonio Candido afirma que, cientes disso, os escritores do século XIX (época em que despontaram o cientificismo, o materialismo, o psicologismo e o romance documental, dentre outras coisas), sobretudo os da segunda metade, tentaram imprimir mais realismo e mais verossimilhança às suas obras, aproximando as suas personagens dos homens e das mulheres do mundo real, no que concerne ao aspecto psicológico, ou seja, os autores procuraram, à maneira como acontece aos seres humanos, em termos psicológicos, tornar as personagens de seus livros mais complexas, mais misteriosas, mais difíceis de serem desvendadas, mais inesperadas e, consequentemente, mais intrigantes, mais atraentes e mais convincentes para os leitores. (…)

Como vimos, os escritores do século XIX (principalmente os da segunda metade desse século) procuraram tornar as personagens de seus romances mais complexas e mais densas psicologicamente, a partir da supressão ou da seleção minuciosa, cuidadosa, das suas falas, dos seus traços e dos seus gestos, de modo a quebrar com aquela unidade, com aquela coesão, com aquela lógica da personagem que tinha sido pré-estabelecida pelos escritores tradicionalistas (sobretudo os românticos) e que repousava no princípio duma descrição, seja ela física ou psicológica, exaustiva e duma repetição de determinadas falas e de certos comportamentos que, à custa de repetida, acabavam por caracterizar ou por rotular as personagens.

       (Excerto de um texto da autoria de  José William Craveiro Torres: “Capitu: exemplo maior de personagem do romance moderno no Brasil”)

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1 Comentário

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One response to “Antonio Candido e a personagem de ficção

  1. Silvania Chagas

    Essa colocação de Antonio Candido sobre a verossimilhança da personagem é, realmente, muito interessante, mas se pensarmos na literatura enquanto arte e na trajetória desta, talvez seja hora de revermos e aprofundar esse estudo.

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